sexta-feira, 17 de agosto de 2012

CONTOS DO MUNIR - 94

A CARTA DE AMOR

Danielle, PhD em economia e administração, executiva de uma grande empresa, divorciada, só tinha seu pensamento voltado para o trabalho, afastava as recordações e desejos femininos em longas caminhadas ou na igreja. Mesmo assim, era surpreendida e se deixava levar pelas lembranças dos namoros de sua juventude, latentes em seu ainda belo corpo de mulher. Viajava em seus sonhos, na busca do companheiro ideal. Havia sempre algo de errado com alguém que dela se aproximasse.  Perguntava a si mesma, por que isso não acontecia quando mocinha.

Danielle, apesar de vestir-se sóbria e elegantemente em suas roupas de diretora, atraia a atenção masculina. Quando longe da formalidade, era alvo dos olhares de ambos os sexos.

Como a empresa tinha interesses no Rio, mantinha um apartamento no Leblon.

Certo dia em uma de suas viagens a serviço, notou um homem que lia Martha Medeiros em uma Livraria bem próxima a sua casa. Seu pensamento feminino achou aquilo diferente, aproximou-se para ver qual o livro. Era “Fora de Mim”, história do fim de um relacionamento. Já tinha lido o livro, acreditou que estava diante de um sincronismo, ela ainda confusa com o encaminhamento de sua vida de mulher só.  O homem percebeu sua presença, interrompeu sua leitura e lhe ofereceu o exemplar. Ela recusou ruborizada, sem saber por quê. Começaram a conversar e tomaram juntos um capuchino, ao final trocaram seus e-mails e telefones, escritos, o dele em um pedaço de papel, o dela em um cartão da empresa.

Pouco tempo depois, estavam apaixonados, a distância e o trabalho, entretanto, os mantinha afastados, embora estivessem sempre se comunicando por e-mails com juras de eterno amor.

Então surgiu a ideia de uma carta, representava algo mais tangível, trazida junto ao coração, podendo ser lida a qualquer hora em qualquer lugar, trazendo o perfume e a imagem viva de sua amada.

Danielle escreveu:

“Querido

Neste momento, me transporto ao meu tempo de aluna do Sacré- Coeur de Marie, lembrei-me porque estou usando uma roupa parecida com meu uniforme. Eu tinha dezesseis anos, meu pai era falecido, creio que eu era bonita e muito paquerada, não me recordo como a gente dizia naquele tempo. O fato, é que não dava trela pra ninguém, brincava muito de namorar, mas nada de muito sério. Admito que talvez fosse um pouco levada. Mamãe era muito rigorosa e meus horários limitados. Lembro-me de que, certa vez, cheguei um pouco mais tarde, ela disse que iria me esperar na porta de casa, de camisola, com uma vara nas mãos. Hoje, divorciada, fui apresentada a uma série de pretendentes pelos meus irmãos; um jornalista, um senador e um médico mandaram-me e-mails românticos, não adiantou. Teve também o indiano, um homem culto, elegante e riquíssimo com quem tivemos um almoço de negócios, mas que usava patchouli, o que me mantinha no mínimo a um metro de distância. Na hora da foto foi insuportável. Ele deve ter percebido e naquela mesma noite enviou para minha casa um monte de orquídeas perfumadas.

Contei essa história para provocá-lo, mas omiti de propósito o patchouli, e você ficou enciumado.

Até que o conheci.Não sei o que aconteceu! O fato é que senti um tremor quando me aproximei de você naquele dia. Já faz mais de ano, e como o tempo tem sido cruel para nós! Posso dizer assim?

Sinto tanta saudade do nosso amor, do cheiro de seu corpo já impregnado do meu sexo e do meu perfume, e como isso me faz falta! Mais ainda, quando, na exaustão do nosso amor, meus joelhos se dobram e você segura minha cabeça, aperta-a de encontro ao seu corpo e me pede para amá-lo um pouco mais.

Ahan....Que saudades, querido!!!

 Há noites em que mal consigo dormir, alguns dias atrás tive que ir ao hospital, tão acelerado ficou meu coração.

Meu amor por você é tão grande que, se eu o perder será morrer em vida, “È a pior morte, a do amor”;*

Quero que leia com o mesmo carinho que eu escrevi, e para sentir a minha presença, uma gotinha do meu perfume e o beijo que ela leva.

Eternamente sua...”.

                     Danielle

Danielle beijou o papel azul da carta, deixando a marca de seus lábios, teve o cuidado de abrir ligeiramente sua boca.

Dobrou com delicadeza a folha que havia escrito, colocou-a dentro de um envelope aéreo, e depois em outro da empresa, sobrescritando apenas com as iniciais e o endereço para quem enviava.

Chamou o boy e pediu que enviasse a carta registrada.

Ágata, a analista financeira, a tinha observado; apesar de casada, nutria uma verdadeira obsessão por Danielle. Interceptou o rapaz e disse que ela mesma levaria a carta. Pela internet, aprendera como os censores das prisões abriam as cartas sem rasuras. Fez uma cópia. Um pouco aborrecida, por não ter o perfume e a marca de batom original de Danielle. Certificou-se que o cheiro da benzina usada não passara para a carta.

Guardou a cópia com tanto carinho, como se a tivesse recebido.

 A original, apesar de ter sido remetida, nunca chegou ao seu destino.

* Martha Medeiros “Fora de Mim”

Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CONTOS DO MUNIR 93

UM CONTO ÁRABE *

A princesa Nadia acordou chorando.  O seu príncipe Rachid, havia partido na madrugada, montado em seu corcel negro comandando um batalhão de cavaleiros em cavalos escuros como a noite. Iria enfrentar a horda de bárbaros chefiada por Nahoun, o Cruel, que sacrificava indistintamente nas aldeias, homens, mulheres e crianças em seu avanço pelas planícies da África do Norte.

Nadia estava só, os vândalos das cercanias, sabendo da ausência de Rachid, do palácio, se uniram para atacá-lo e saqueá-lo. A Guarda estava reduzida e os homens que restaram eram velhos ou quase incapacitados para combate.

Eram cinco grupos diferentes, inimigos entre si,que se uniram pela cobiça. Cada qual com seu respectivo líder.

Duas facções escalaram as muralhas fortificadas.

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Branca, sua roupagem; branca sua montaria, Nadia, tendo nas mãos a cimitarra, lidera a guarnição de defesa; a outrora meiga princesa se transforma em uma brava guerreira.

Nadia, Anjo em Luz, Nadia, a Primeira, honrando seu nome em árabe.

Assustados com aquela terrível aparição destruidora, lembrando a Indesejada Senhora das Trevas, os invasores, dominados pelo medo, se deixaram abater. Aprisionados foram seus líderes e alguns dos grupos.

Os anciãos da corte aconselharam à Princesa que libertasse os líderes e os prisioneiros, em troca de uma proposta de Paz.

Nadia concordou, aceitando seus conselhos em parte;

Brandindo a cimitarra com perícia, degolou de um só golpe um dos lideres, e logo a seguir o outro

Cavalgando pela muralha, a cimitarra manchada de sangue refletindo a luz do sol, em uma das mãos, e tendo na outra, a cabeça pendente de um dos chefes abatido, jogou-a na direção das turbas inimigas, repetindo o gesto com a do segundo.

A seguir, mandou que libertassem os demais, depois de despojados de suas vestes, que fugiram em desabalada carreira.

As tropas restantes, face à reação inesperada recuaram desarticuladas, tomadas de pavor.

Alguns dias depois, regressa ao palácio o Príncipe, após destruir Nahoun, o Cruel, e seus mercenários.

Encontra sua amada e doce esposa Nadia, que o esperava tranquila e feliz e o beija com seus lábios de mel.

*Inspirado na história de Inés de Suárez, heroína chilena, amante de Pedro de Valdivia. Ou teria sido Inés que se inspirou em Nadia, uma vez que o conto é de um século a.C.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

domingo, 22 de julho de 2012

CONTOS DO MUNIR 92

OSVALDO, O TAXISTA
O carro era um Santana, já fora de linha, grande por fora, desconfortável por dentro. Relutamos, a princípio, eu e meu amigo, de nele embarcar.
Além do mais, o motorista também parecia já ter passado o prazo de validade.

Estávamos voltando de um passeio, ao Clube Naval em Charitas.

Seu Osvaldo, cabelos brancos escassos a desaparecer, deve ter notado nossa hesitação e passou a elogiar seu táxi e também a si mesmo, que nunca tinha batido, ou ficado na mão. Jamais encontrei um taxista que tenha sofrido um acidente. Não consultei estatísticas, mas creio que acidentes com táxis são realmente raros.

Seu Osvaldo tem setenta e oito anos e muita disposição, está meio gordo, pela vida sedentária, diz que dirige dez horas por dia, cinco filhos, quatro homens e uma mulher, todos já formados e independentes, ele mesmo aposentado, viúvo há dois anos.
Perguntei por que ele ainda dirigia, a resposta:
-Tô de mulher nova, fazendo sete implantes de dente, são muito caros, ah! Também tô trocando de carro. A minha mulher é nova mesmo, tem quarenta e nove anos, é babá no Leblon e ganha bem.
E continuou:

-Eu tinha dois apartamentos, um de sala e três quartos no Flamengo e o outro, onde agora estou morando, de sala e quarto na Glória. Era onde eu levava essa minha namorada. Estou com ela há doze anos. Sabe, minha mulher já não queria saber de sexo. O do Flamengo tem garage, guardo o carro ali, meus filhos vivem lá.

-Doutor, estou com vontade de levá-la para morar comigo. O que que o senhor acha?
-Seu Osvaldo, o senhor tem alguma idiossincrasia ?
-Que isso doutor! Não tenho nada disso não!
Percebi que ele não havia entendido, e tentei explicar:
- Seu Osvaldo, o senhor ronca? Mexe-se muito na cama? Solta gases quando está dormindo? Acorda no meio da noite e liga a TV?
- Ah, isso eu faço sim senhor!
-Não sei não, seu Osvaldo. Foi ela que pediu?
-Não! Sou eu que quero!
-Olha, seu Osvaldo, o senhor não está feliz como está?
-Estou muito!
-Então, deixa quieto!

Já estávamos chegando, ele ficou calado até parar o carro.
Quando saltei, ele saltou também e disse apertando minha mão:
-Obrigado, doutor. O senhor é um homem sábio.
Não sei se ele vai deixar quieto.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CONTOS DO MUNIR 91

NATASHA x NICOLE
Natasha regressou ao Rio dia 17 de julho. Ao contrário das outras vezes, hospedou-se no Hotel São Francisco no centro da cidade, esquina da Av. Rio Branco. As suítes da cobertura do Copacabana Palace estavam indisponíveis por obras no hotel, mas a razão não era bem essa. Era a proximidade do Distrito Naval.
Ligou para que fosse vê-la naquela mesma noite. Encontrei-a diferente, dessa vez usava um uniforme de oficial, mais precisamente de uma Capitã-de-Corveta engenheira especializada em química nuclear. Cabelos curtos, impecável no trajar do uniforme branco, ostentava as barretas de medalhas de vinte anos de serviço e mérito naval.
-Que tal?- Perguntou, iniciando uma conversa em gíria naval.
-Tudo safo? Não está pegando nada?
Olhei a farda, o desenho bem próximo do que havia imaginado o estilista Guilherme Guimarães e apresentado pelas modelos, entre outras, por Carla de Souza Lima, filha saudosa de um almirante. Notei que fora feita em alfaiataria, ou remodelada em alguma boutique, tal a elegância no vestir, fugindo aos padrões militares, daqueles vendidos em lojas.  Acentuava suas curvas femininas.
-Vai pegar!  Apontei para a marca da lingerie ligeiramente ressaltada.
A visita ao Centro Experimental de Aramar,(CEA) programada pelo “REVIVA A MARINHA” para oficiais da Reserva, seria no dia 19, quinta feira.
O CEA se localiza em Iperó (SP), próximo a Sorocaba, onde a Marinha desenvolve a miniusina, utilizando urânio enriquecido nas ultracentrífugas, que simulará o funcionamento, em escala real, o reator do sistema de propulsão a equipar o primeiro submarino nuclear brasileiro.
Nossas ultracentrífugas utilizam um processo de levitação magnética com um consumo mínimo de energia e maior capacidade de enriquecimento por ciclo, processo alvo da cobiça de outros países.
O Brasil guarda a sete chaves esse segredo tecnológico, limitando inclusive o acesso de técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Dezenove de Julho de 2012
O ônibus do Comando do Primeiro Distrito Naval, ar condicionado, poltronas de couro, aguardava, do lado de fora do cais da bandeira, os vinte visitantes selecionados para a visita a Aramar, Capitães-de-Mar e Guerra e Almirantes, alguns ainda na Ativa.
O branco magrelo do Azera, como motorista, duas oficiais, guias da viagem, Natasha em seu uniforme branco corrigido e uma Capitã-Tenente negra de belos traços.
Na manhã do dia seguinte, fomos recebidos nas novas instalações do Centro Experimental Aramar, inauguradas em fevereiro.
Inicialmente, visitamos o Laboratório de Materiais Nucleares; Natasha se interessou particularmente pelo espectrômetro de emissão atômica com plasma indutivo acoplado e também pelo microscópio eletrônico de varredura com espectrômetro de energia dispersiva acoplado. Esses equipamentos possibilitam a determinação de teores de microconstituintes e análise química de material. Imaginou que o explosivo plástico que levava em um dos botões de seu uniforme poderia ser assim detectado mesmo depois de utilizado. Outro botão continha a microcâmera espiã.
Após o almoço, fomos obrigados a usar roupas especiais de proteção radioativa com placas indicadoras do nível de radiação absorvido; iríamos, afinal, conhecer de perto as ultracentrífugas.
Não imaginava que fossem tão grandes, cerca de dois metros, montadas em série. A sala onde nos encontrávamos com quase cem metros de comprimento parecia um cenário de filme de ficção. Era protegida por painéis que vedavam a fuga de radiação para o exterior.
Vidros de grossa espessura separavam os corredores onde estavam as ultracentrífugas impedindo que fossem tocadas. . Calculei que haveria só naquela sala cerca de seiscentas.
Um dos cientistas que nos acompanhava disse que a velocidade de rotação havia sido reduzida para evitar prováveis desgastes
Aos meus olhos, o tamanho, a velocidade e a cascata de processamento pouco me diziam. Na visão de Natasha revelavam muitos mistérios.
FINAL
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O plano inicial seria provocar uma pequena explosão no ambiente das ultracentrífugas. Mais tarde, Olaf infiltrado no grupo de reparos, colheria material que permitisse decifrar o segredo do mancal de levitação. Natasha, satisfeita com o que vira, desistiu de detonar seu botão dourado do uniforme.
Natasha estava muito excitada por ter conquistado seu objetivo, pediu que ficasse com ela, iria viajar pela manhã. Deixei-a de madrugada.
Nicole estava chegando e havia prometido que a pegaria no aeroporto.
Levei Nicole para o meu apartamento, estávamos no sofá disputando o melhor ângulo para ver um vídeo.
Portas, mesmo com trincos de segurança, nunca foram obstáculos para Natasha, cujo voo fora transferido, irrompeu na sala e possessa ao nos ver, insultou Nicole.
-O que esta periguete está fazendo aqui? Vou acabar com você, mas quero que tenha todo o direito de defesa, escolha como, aonde e quando!
-Florete, domingo 22, Praia do Perigoso ao nascer do sol - respondeu friamente Nicole.
Natasha, perita em artes marciais, treina com Wladimir Putin, uma das poucas ocasiões em que ele retira o crucifixo ofertado por sua mãe.
Nicole, exímia esgrimista, medalha de ouro em 2010.
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Domingo -22 de julho- Praia do Perigoso- nascer do sol.
Natasha e Nicole – dois médicos assistentes e um juiz.
As desafiantes usando tão somente as máscaras protetoras, temiam pela beleza de seus rostos,os corpos desnudos. O mais leve toque seria percebido de maneira mais eficiente que o uso de sensores eletrônicos.
Iniciaram o duelo na posição convencional de resguardo. Natasha procurou o contato, o braço estendido para a estocada. Nicole completou a parada e contra-atacou em resposta, atingindo Natasha na altura do ombro esquerdo bem próximo ao coração.
Nicole aproxima-se de Natasha caída, o sangue correndo em sua pele morena. Natasha ainda se vira com a agilidade adquirida nos treinamentos das lutas marciais, aproveita a abertura de Nicole e também a fere.
Haviam se passado três minutos, a luz do sol resplandecia nas duelantes nuas em suor e sangue.
O juiz e os dois médicos se aproximaram interrompendo o combate.
Apesar de tanto sangue, nenhum dos ferimentos era de gravidade, entretanto seria necessária uma transfusão, como ambas tinham sangue tipo AB, ela foi realizada de imediato.
As duas moças foram salvas. No hospital, lado a lado se tornaram amigas. Hoje moram juntas em um flat no Leblon.
Tive que me converter ao Islamismo!!
Aprendo russo com Natasha e esgrima com Nicole.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

terça-feira, 26 de junho de 2012

CONTOS DO MUNIR 90

NATASHA CHEGOU   PARTE 2

Na quarta-feira, Natasha acordou muito cedo e bateu à porta do meu quarto. Pensei que fosse me chamar para subir. Estava arrumada.

-Hoje vamos passear de helicóptero. Leve um casaco, vamos almoçar a bordo e voltar ao escurecer.

Fomos até a cozinha para comer alguma coisa, ao abrir a porta da geladeira, que tem estampada em toda sua extensão um gigantesco pingüim (Nicole havia adorado, Natasha nem notou, com certeza as geladeiras na Rússia são assim) a Lu minha secretária acordou e prestimosa:
- Já vou colocar a mesa!

Natasha simpatizou com a Lu e vice-versa. É impossível alguém não gostar das duas. A Lu é muito sentimental e chorou certa vez quando chamei sua atenção.

Nosso café foi interrompido pelo interfone, era Pedro, o zelador, avisando que o carro estava nos esperando.
Natasha perguntou se eu tinha alguma escova de dente para visitas, tinha uma nova embalada, no lavabo. Ela usou.

Descemos, um Acera preto, blindado com vidros fumê estava parado na porta da garagem. Ao nos ver, o motorista, um cara de terno escuro, branco, muito branco que se tomasse sol teria que dormir pendurado em um cabide, saltou do veículo para abrir a porta traseira, sem tocá-la ela abriu, pensei que alguém estivesse já no carro, era tecnologia.

Sentamos, um painel retrátil opaco nos isolou do chofer.

Natasha me deu um longo beijo, dizendo num sussurro que à noite, eu teria uma surpresa.

O Heliporto da Lagoa estava deserto, a exceção do helicóptero Pégasus 7101 da Marinha, pousado, já pronto para decolar.

Subimos a bordo, Natasha cumprimentou os dois tripulantes, um Capitão de Corveta e um Tenente:

-dobryĭ denʹ добрый день (bom dia)

-Khoroshiĭ komandir Utro (bom dia comandante) responderam os dois voltando-se para ela.

Depois em português para mim:

-Bom dia comandante, bem-vindo a bordo.
A aeronave levantou voo, seguimos na direção de Itaguaí onde estão sendo construídas a futura Base Naval de Submarinos e as instalações do projeto do submarino nuclear brasileiro.

Natasha acompanhava ao vivo e em seu micro, na tela as imagens de satélite, do monitor do radar AN/APS-143(V), que equipa o Pégasus EC 725 e.
Comparava-as com as do vídeo produzido pela Marinha e pela construtora Odebrecht, onde o Coordenador do Programa ProSub (um almirante, eu o conheço, caminha aos domingos no Leblon,) explanava o que estava sendo feito. Natasha havia editado um novo, nele baseado. Dava ordens em russo aos pilotos para correção de rota.
- Po pravomu bortu  
Visitei alguns meses atrás o projeto e pude concluir que a mega construção do estaleiro e base estava sendo tocada em ritmo acelerado. Os informes de que a Marinha Russa cederia breve ao Brasil, à semelhança do que fez com a Índia, na base de leasing, um submarino nuclear parecia transformar-se em realidade.

Natasha estava deslumbrada com a beleza da cidade do Rio de janeiro, mostrava seu lado feminino abandonando sua postura formal e declamava sua admiração pela vista que desfrutava.
De Itaguaí, depois de observar a Nuclep, rumamos para Mocanguê sede da Esquadra Brasileira.  Natasha não demonstrou muita atenção, já era coisa conhecida. Sobrevoamos o Nae São Paulo, as fragatas, os submarinos, plataformas da Petrobras, o Arsenal da Marinha, as instalações do Corpo de Fuzileiros Navais seus Batalhões, o Centro de Armamento e a Fábrica de Torpedos. Voando sobre o mar, vimos os navios de guerra e as lanchas da Polícia Marítima que patrulhavam o litoral nas proximidades do Rio Centro onde ocorria a Rio+20.
Observamos com binóculos os deslocamentos dos Chefes de Estado, ocasião em que Natasha fez um comentário que me deixou grilado.

- Ainda bem que nem  Mr.Obama, nem o Presidente Putin vieram!
-O Rio poderia se transformar em uma nova Sarajevo.

Depois, como tivesse se arrependido, acrescentou:

-Você sabia que o Vladimir Vladimirovitch Putin é um católico ortodoxo igual a seu pai? Ele é fervoroso, está ajudando a Síria contra a Irmandade Muçulmana por razões religiosas.
Regressando, pousamos no campo de atletismo da Escola Naval, um sorridente oficial de serviço nos aguardava, cumprimentou Natasha como uma antiga amiga. Estranhei, mais tarde ela me explicaria que o havia conhecido na véspera no Rio Centro e o avisara do pouso.

O Azera com o branquela na direção já nos aguardava. Juntou os pendrives das gravações de bordo aos de música no carro. Neles estava escrito “música no mar”. O Pégasus decolou de imediato, sua autonomia estava se esgotando e eles teriam que voltar a São Pedro da Aldeia.
Natasha havia se trocado no helicóptero, usava agora um terninho preto que me fez lembrar Nicole.
O automóvel seguiu direto para a Zona Sul, no trajeto disse que iria para o evento e me deixaria na esquina da minha rua, o painel retrátil ficou aberto.
À noite, passando de oito horas, ligou dizendo que passaria rapidamente pelo apartamento, que eu estivesse pronto, iríamos jantar no Copacabana Palace, pediu que eu usasse o blazer azul-marinho, comprado com ela na loja Armani.
Chegando a minha casa, pegou sua valise L.V e descemos juntos. Uma Cherokee preta nos aguardava, na direção, o comandante do helicóptero.
Natasha e eu descemos no Hotel. Despediu-se do oficial.
-Blagodarya Olafa
Já havia reservada a mesa para nós, pediu que a aguardasse, enquanto se trocaria. Vinte e cinco minutos depois,ela voltava. Estava deslumbrante em um vestido Dior, longo, azul, de seda, de um ombro só. Atrás o decote  descia à altura da cintura deixando suas costas totalmente nuas. Usava um colar fascinante de perolas negras. Parecia mais alta. A roupa colada ao corpo mostrava a ausência de lingerie.
Sentou-se à minha frente, pediu-me que escolhesse o vinho, optei por um Brunello; Disse-lhe que solicitasse o prato, Natasha dirigiu-se ao maitre, parecia que o conhecia há tempo, e decidiu-se por Canard a L’Orange.
A toalha da mesa cobria nossas pernas, Natasha descalçou um dos sapatos e seu pé roçava em minha perna por baixo da calça, em um carinho de pura sensualidade. Ficou impossível não me deixar envolver, tão forte a sensação transmitida.
Um piano se fazia ouvir, um cantor com a voz extremamente parecida com a de Nat King Cole cantava “Love is a Many Splendored Thing”.O tempo parecia parado em um agora de felicidade, dançamos de rostos colados como adolescentes do século passado.
Natasha deu um ligeiro bocejo e pensei desanimado que era sinal de despedida . Pegou minha mão.
-Vamos para o meu quarto!
Subimos, trancou a porta, dizendo que naquela noite ela seria a Comandante, enquanto me beijava, seu hálito de vinho me embriagava e ela tirava meu blazer, minha camisa até me despir por completo. Ameacei tirar seu vestido, ela não deixou e pediu para que eu o rasgasse, nunca mais o usaria. Ainda hesitante, até que ela própria passou a guiar minhas mãos e puxou com força a abertura no ombro coberto, revelando seus seios morenos, em contraste com as pérolas negras.
A garrafinha, ainda com rótulo em cirílico, agora era de um óleo verde azulado, um cheiro e sabor de hortelã adocicado, porém com os mesmos efeitos estimulantes. Perdi a noção do tempo, sei que, nessa noite, seus suspiros foram com meu nome.
Pela manhã, o Azera me levou para casa e Natasha seguiu com seu terninho de executiva para a Conferência.
Quando saí do carro, falou que logo eu teria notícias dela.
Em casa, exausto como se tivesse corrido a maratona, ainda tive forças para subir até a suíte do terraço. Nenhum vestígio da presença de Natasha, a não ser o vidrinho vazio de letras russas.
Desci; no lavabo, a escova de dente usada uma única vez, era a lembrança.
Mais tarde, copiei o que estava escrito na garrafinha.
Tradução: Afrodisíaco de ação penetrante, contém ginseng, pó de dente de tigre e de barbatana de tubarão.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

terça-feira, 19 de junho de 2012

CONTOS DO MUNIR-89


NATASHA CHEGOU (1) continuação do Conto 87

A PROVÁVEL ESPIÃ RUSSA
Disse que se chamava Natasha, nascera na Hungria e fora educada na antiga União Soviética. Aproximadamente menos do que cinquenta anos, morena, olhos claros, porte esbelto, 1m 65, vestindo calças Jeans, blusa e casaco branco, economista em um banco canadense.Integrava o City Tour, levava duas câmeras digitais com teleobjetivas e parecia fissurada em fotografia. Falava espanhol, inglês, mandarim, francês e, naturalmente, russo. Achei estranho que suas máquinas apontassem, além dos pontos turísticos para objetivos estratégicos, instalações militares e navios de guerra.Parece que notou que eu a observava, aproximou-se perguntando em russo qual a minha nacionalidade. Não falo russo, mas entendi o que ela disse, respondi em inglês, ser brasileiro, oficial da Marinha de Guerra.
.
Como estávamos sós,(Nicole desistira de ir comigo, alegando ter um Congresso e a viagem coincidir com o Dia das Mães) passamos a conversar amenidades em inglês. Às vezes, me perguntava sobre a Marinha de Guerra Brasileira, quando ficaria pronto o submarino nuclear, se nosso porta-aviões estava operativo, comentários sobre pontos turísticos e novos questionamentos: Se o Comando Sul dos Estados-Unidos já havia estabelecido sua base militar no Brasil como fizera na região de Valparaiso, com a alegação de ser uma base para treinamento das Forças de Paz das Nações Unidas. Se eu sabia como operavam nossas centrífugas de urânio.
Passei a ser parte de suas fotos, aparentemente era eu o objeto de suas câmeras, o fundo era sempre um complexo militar, uma fragata chilena ou um submarino.
Combinamos que ela me enviaria as fotos por e-mail, as de pontos turísticos recebi, as outras não.
Natasha disse que nas próximas semanas iria à Argentina, ao Peru e Venezuela. Iria visitar sua mãe que estava em Maskvá (Moscou), regressando ao seu emprego no Canadá.
Semana passada, recebi um e-mail dizendo que talvez venha ao Brasil para o carnaval e gostaria que eu fosse seu guia turístico.
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Sua vinda foi anunciada pela entrega em minha casa de uma caixinha de vidro com água, encimada por um buquê de pequenas rosas vermelhas e um cartão, em um envelope lacrado, lia-se Natasha. Um dia depois, duas ligações, uma para o fixo e outra para o celular diziam que fosse esperá-la no Santos Dumont em um voo vindo de São Paulo.
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Era manhã de domingo, embora inverno, dia ensolarado. A jovem que desembarcou estava diferente da que eu havia conhecido na viagem a Santiago. Cabelos longos soltos,camiseta branca em cima da pele permitindo antever o contorno natural de seus seios, um short jeans, um palmo acima do joelho com rasgados assimétricos nas pernas, sapatos bege clássico,salto alto, sola frontal de dois centímetros, praticamente iguais ao da princesa Kate, óculos de sol Oakley e o único item remanescente do City Tour do Chile, o casaco branco que ela trazia no braço. Nada de câmeras.
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Foi ao meu encontro.
-Bom dia, Comandante.
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Falando um português brasileiro, sotaque carioca que me espantou:
-Antecipei a viagem, sou palestrante da Rio+20.
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Perguntei pelas malas e para onde iria.
- As malas, minha secretária as levará para o Copacabana Palace, terei que passar lá primeiro, para assinar o meu registro e pegar umas coisinhas. Depois vou para sua casa, fica mais perto. Vou ficar no quarto junto ao terraço.Creio que não vou lhe causar problemas, sei que sua namorada só virá em agosto para um congresso.
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Nem me preocupei em perguntar como ela conhecia a minha casa, como tinha aprendido português e os detalhes de meu namoro com Nicole.
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Natasha até parecia que já tinha estado no meu apartamento, ao entrar no elevador apertou o botão do quinto andar e fez um comentário:
-Pensei que o botão indicasse cobertura.
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Subiu a escada em caracol com desenvoltura, levando uma valise L.V. e abriu o blindex percorrendo o terraço.
-É bonito, mas você deveria ter mais fruteiras, um pé de limão e um de laranja lima.
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-Diga ao J. seu jardineiro.
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-Vou descansar um pouco, foi uma viagem cansativa.
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Desci e fui assistir televisão, anoiteceu.
Eram quase oito horas da noite quando ouvi o apelo.
-Comandante, suba por favor.
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A porta da suíte estava fechada, bati.
Natasha abriu a porta. Estava vestida com uma roupa de marinheira, um saiote azul-marinho curtinho, a blusa branca amarrada acima da cintura, à mostra o umbigo bem torneado, um gorro branquíssimo que lhe assentava bem nos cabelos presos.
Disse:
-Comandante, tire logo esse meu uniforme antes que me prenda por falsidade ideológica!
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Iniciei tirando o gorro.
Ela reclamou:
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-O gorro não precisa!
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Encostou-me na parede e começou a desabotoar minha camisa.
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Untou nossos corpos nus com óleo de uma garrafinha, o rótulo escrito em alfabeto cirílico, vermelho vivo, cheiro e sabor de morango.
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Em seus suspiros de êxtase, às vezes me chamava de Olaf.
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Duas horas mais tarde saímos para jantar, ao voltar disse-me que teria que acordar muito cedo, o motorista viria buscá-la às seis e trinta para levá-la ao Rio Centro.
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Voltou por volta das vinte horas, perguntando se eu não teria um queijo gruyere, brie ou grana padano e um vinho tinto pinot noir.
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Nessa noite não me chamou.
Continua...
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

segunda-feira, 11 de junho de 2012

CONTOS DO MUNIR 88


VIAJANDO NO TEMPO
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Descendo as pedras do Arpoador, vinha o Professor, como eu e o Fernando o chamávamos.
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O Professor, que chegara cedinho para pescar, voltava, caniço a tiracolo, um embornal embrulhando peixe,barba longa, espessa e branca, calça jeans, colete bege, sandálias de couro, óculos de aro de metal.
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Eu estava sentado à mesa em um dos banquinhos de cimento conversando com Marcelo. Pedro viajara para Maricá, pela manhã telefonei para a casa dele, uma voz feminina atendeu, disse não saber se ele estava ou não. O Bebeto, em Buenos Aires, dava noticias por email.O Joni só vinha quando o Bebeto (PQP) estivesse, era segunda-feira, o Nemias não viria.
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As meninas de shortinho, na praia do Diabo, brincavam com seus cachorrinhos, até que a Guarda Municipal chegasse e as espantasse dali.
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Um emergente sentou-se e tentou engajar-se no papo, começou a chamar a mim e Marcelo de paizões. Não sou elitista, mas não gosto de chato de espécie alguma.
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Aproveitei a deixa e fui ao encontro do Professor.
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A última vez que o vimos, eu estava com Fernando, faz bastante tempo, agora Fernando mora na Austrália, antes estava na Nova Zelândia e casou-se lá com uma natural da ilha. Ele tinha um cachorrinho preto da raça Pinscher, certa vez o Nick, era o nome do cão, estava em uma posição que me lembrava uma gárgula, semelhante as que existem no pátio da Escola Naval e da Catedral de Notre Dame. Falei para o Fernando. Ele não sabia o que era gárgula e me xingou até a última geração.
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Naquele tempo, o cenário no Arpoador era um pouco diferente, ainda existia o antigo prédio dos Correios ,as moças de shortinho eram outras, vinham de bicicleta. As praias do Diabo e a do Arpoador davam livre acesso aos cães e ao jogo de frescobol. A V. ainda era estudante de Turismo, moça mais bonita da praia, a C. comprou uma bicicleta Trek, incrementada que foi roubada no mesmo dia, na nossa frente, por um cara armado com um 38. O Fernando, felizmente, não estava presente, ficou indignado porque não reagimos. O Zé Leite vinha de bicicleta e mesmo com sua perna vitimada pela paralisia infantil, salvava os afogados. O PW ia correndo e o Geraldo andando. Dr. Agenor completava noventa anos, viveu até aos cem , lúcido. O Miltinho, dentista, amigo do Grego, se diz herdeiro de uma grande fortuna, providenciou a derrubada do prédio dos Correios, abandonado, transformado em um antro de marginais.
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O Grego ainda namorava uma aeromoça.
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Agora o PW, depois que roubaram sua bicicleta, vai nas de cor laranja da Prefeitura.
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O Pedro usava cavanhaque e o Marcelo bigode. O Paulo dono do Blue, um cão Collie, parecido com a Lassie dos filmes, começava a paquerar a T. O Armandinho também ia, agora ele anda mancando, me pergunta sempre pelo Marcelo, já disse para ele pegar um ônibus e ir até lá.
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Parei o professor, estranhando que ele reaparecesse depois de tanto tempo. Fiz a mesma pergunta de antigamente:
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- Professor, quanto pegou?
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Esperando a resposta que sempre dava:
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-Quatro, dois fugiram e um escapou.
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Nunca havia entendido a sua matemática.
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Agora ficava claro para mim: - Dois não morderam a isca e um fugiu do anzol, o quarto levava para casa no embornal azul. Só que eu o achei um pouco diferente: a barba mais branca, os dentes estragados, a roupa mais desgastada, os aros dos óculos não mais de ouro, menos afetivo.
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A resposta que recebi foi bastante diferente:
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-Peguei trezentos xereletes que já distribui pela turma, meus quatro filhos médicos só gostam de robalo, aparece com a maré vazante.Foram eles que me deram esse caniço japonês de titânio. Custa muito caro, a minha pensão da Marinha não permitiria esse gasto.
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Meus pensamentos me levaram aos pernoites na Força de Submarinos e às madrugadas de pescaria nas pedras da Ilha de Mocanguê nos anos do Regime Militar.
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Então percebi:O Professor era o Suboficial meu professor de pesca, enquanto eu pescava um, ele pescava cinco xereletes.
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Em uma noite pesquei cinquenta, seguindo suas instruções:-“É preciso sentir o toque da fisgada, se não ele come sua isca.”
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Por isso ele não estranhou quando o chamei de Professor.
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Nós dois temos nomes bastante diferentes, ele lembrou-se do meu, dizendo-o por inteiro. O dele; Índio Brasil Couto.
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O outro Professor, soube depois, já não morava no Arpoador e nem na terra há mais de dez anos.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com