domingo, 15 de março de 2015

CONTOS DO MUNIR 004/2015



ME LEMBREI DE VOCÊ 
ANGEL
.
Angel era artista igual a Paulo Adolfo e Marcilio.
.
Marcilio faz faculdade, diz que não consegue aprender o beijo técnico, foi reprovado na matéria. Paulo Adolfo formou-se na Escola da Vida por necessidade de sobrevivência, e já foi rival em uma novela de um grande ator, verdade que em uma cena breve, mas bem trabalhada.
.
Angel, no início, um figurante entre tantos outros. Mais tarde, em voo solo em pequenos papeis de novela.  Apareceria se destacando em filmetes de propaganda, atuando como parceira de artistas já famosos de televisão. No seu tempo, eram permitidos os anúncios de marcas de cigarro. Em um, que durou mais de um mês, descia as escadas do Cristo e, após uma paradinha em um degrau, tirava dois do maço, mostrava o logotipo e acendia o dela e o do acompanhante em um gesto carinhoso.
.
Angel, russa, loura, alta e elegante também era modelo, desfilava em sessões privadas para a classe rica da zona sul. Orgulhava-se de sua magreza, quando nua, deitada mostrava o íleo a sobressair sob a pele.
.
Era casada com um rico atacadista de tecidos. Um homem alto, moreno, bonito e mulherengo, possuidor de um carro esporte, e que não se importava de pagar multas por excesso de velocidade ou estacionamento proibido, parava em qualquer lugar.
Normalmente as empresas para as quais anunciava, enviavam um carro para buscá-la.
.
O marido almoçava em casa, da varanda ele a via partir. A seguir ele descia, pegava seu Mustang, buscava a namorada e rumava para os motéis da Zona Oeste.
.
Em uma sexta-feira, a filmagem da propaganda seria na Barra, Angel só se convenceu que era o Mustang de seu marido quando o viu no volante com sua acompanhante, a irmã de um amigo da família, entrando no motel Dunas na Avenida das Américas.
.
Alegou que estava passando mal, e realmente estava.
.
Em casa, enorme frustração, e vontade de vingança.
.
Na segunda, como fazia quando não estava trabalhando foi passear em Copacabana. Os shoppings eram poucos, ela visitava as lojas de grife e se divertia olhando o público.
.
Agora, sua cabeça era outra, passou a prestar atenção aos homens que a olhavam com admiração e a avaliá-los.
.
Luiz saíra do trabalho estava de terno cinza chumbo talhado pelo Martins, alfaiate do Clube Naval, a camisa sob medida da Casa Alberto, a gravata de seda cor de céu em dia claro. Havia marcado dentista na Miguel Lemos
.
Resolveu tomar um café no Azulzinho.
.
Seus olhos foram atraídos pelo olhar cor de violeta da loura que estava usando uma blusa listrada tipo marinheiro com as cores da bandeira da França, calça comprida, a boca de sino era moda, sandálias de salto de corda.
.
.Caminhavam na mesma calçada em direções opostas. Luiz a cumprimentou, perguntando:
.
-Posso falar com você?
.
Ela:
.
-Ali na Cirandinha.
.
Luiz foi a lanchonete, esperou uns quinze minutos e já pensando:
.
-Que moça esperta, vou embora.
.
Na porta encontrou-se com ela e logo uma empatia tomou conta da conversa, ali ficaram até o por do sol.
.
Luiz notou a aliança em sua mão esquerda, e ainda assim ofereceu-se para levá-la até em casa.
.
Angel agradeceu, dizendo que seu Corcel estava estacionado ali perto.
.
Despediram-se com os beijinhos tradicionais dos cariocas.
.
Uma semana depois Angel telefonava e marcaram um encontro para um cafezinho.
.
Ela pediu a Luiz que a buscasse em casa. Ele perguntou:
.
-Seu marido não vai estranhar?
.
Angel:
.
-Você agora é o diretor da companhia de arte para a qual estou trabalhando.  
.
Seguiram para a Ilha dos Pescadores.
.
Na volta, veio cantando a canção Folhetim da Gal Costa:
-Folhetim
Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim
E se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim
E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte, te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim
Compositor Chico Buarque 
Na outra semana, ela disse que iria no carro do marido.
Ela adorou o Dunas, embora o porteiro do motel tenha reconhecido o Mustang e feito uma cara de espanto.
.
O tempo passou, Angel ficou viúva, engordou e casou com seu personal trainer.
.
Luiz mais velho, sentado com amigos em um bar e, na mesa ao lado, sua namorada conversando com um rapaz bem mais jovem.
.
Luiz mais tarde perguntou quem era.
.
-É um vizinho do prédio que queria discutir como vamos votar na reunião de condomínio.
.
-Me lembrei de você Angel
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail: alzumunir@gmail.com

terça-feira, 10 de março de 2015

CONTOS DO MUNIR 003/2015



CARÊNCIAS
.
No tocante a relações humanas, de vez em quando também acontecem coisas surpreendentes no Leblon.
.
Há uma hora, estava sentado com dois amigos do lado de fora do Armazém do Café. Uma loura, ainda jovem e bonita em pé, esperava um lugar, um dos companheiros a convidou para juntar-se a nós, ela aceitou prontamente. Vinha de uma sessão de análise nas proximidades. Creio que, ainda no embalo da consulta, resolveu continuar seu relato. Divorciada, chama-se Lane, seu ex-marido era gago e não tinha um pé. Ela o curou da gagueira, mas era muito implicante e ciumento.
.
E prosseguiu:
.
-Hoje estou me sentindo muito só, aliás, hoje não, todos os dias da minha vida. Tenho dois meninos que estão morando com o pai, preferiram ficar no Leblon, eu morava aqui, depois me separei e fui morar na Barra, nunca pensei que fosse tão longe. Agora são quase oito horas da noite, e vou ter que voltar, mas antes tenho que passar na farmácia Venâncio, ali na Dias Ferreira.
.
Continuou alugando nossos ouvidos:
.
-Lá no prédio onde eu moro, tem uma garota que se acha a mais tudo do mundo: mais sexy, mais bonita, que tem o corpo mais bem feito. Já vi celulite nas pernas dela, e o rapaz mais atraente do edifício vive querendo papo comigo e não dá bola para ela, que fica chateada comigo.
.
E bem que sinto falta de um aconchego, eu dormia de conchinha com o meu ex, a gente fazia amor todas as noites, mas brigava todos os dias. A mãe dele era boazinha e pagava nossas passagens para a Europa.
.
Não sei se vou me acostumar com alguém que tenha os dois pés, e sem disfarçar olhou por baixo da mesa como se estivesse conferindo.
.
Senti a ponta do seu sapato tocando sutilmente no meu tornozelo, uma estranha sensação me invadiu: erótica, como se meu pé ali não estivesse.
.
- Já é tarde, vou pra casa, a minha mulher calça trinta e sete, mas me ameaça com um tamanco quarenta e quatro. - disse um dos meus companheiros.
.
O celular do outro tocou:
.
-Tá, tá bem já estou indo.
.
Fiquei sozinho com ela.
.
-Você também não vai embora agora não, né? Bem que podia me acompanhar até a Venâncio?  Na verdade, eu nem gostaria de voltar para a Barra. Se eu pudesse, dormiria aqui mesmo no Leblon, e juntaria meu travesseiro com o de alguém.
.
Ela, embora bonita, não induz firmeza.
.
Exatamente nessa hora chega Nicole. Vestia blazer e saia pretos, uniforme de executiva, as meias, aquelas francesas da Claudia Leite e das dançarinas do Faustão para modelarem as pernas. Seu Chanel perfumou o ambiente. Nicole é loura de cabelos longos. Divorciada, tem um único filho de seu primeiro casamento, corpo facetado pela academia aparenta ser bem mais moça. Hoje é o amor possível.
.
Eu a convido para sentar, ela faz festa no meu cachorro, não senta e entra no Armazém onde pede um mate, (depois eu soube que ficou nos olhando).
.
Lá dentro vejo também outra moça, morena típica brasileira de cabelos curtos, poderia ser âncora de telejornal. Seu nome é Natasha, falaram que trabalha em uma editora, está usando uma espécie de camiseta leve de tom azul segura por duas alças finas deixando nus seus ombros, a blusa ressalta os seios pequenos e firmes. As calças compridas são cinza ajustadas em seu corpo elegante, as cadeiras um pouquinho a mais do ideal.  Não vi, mas com certeza tem aquelas covinhas nas costas na linha da cintura que são as marcas do garfo que Deus a tirou do forno. Ela seria um amor extremamente tangível. Toma um café e olha a tela de um laptop. Também usa Chanel e talvez seja sobre isso que conversa com Nicole.
.
Insisto com Nicole, quando ela sai, para que se junte a mim e a Lane, ela não aceita, se desculpa, tem um jantar para ir.
.
Lane me pergunta se não é perigoso ela ir até a drogaria sozinha. Digo que não. .
Volto para casa para dar comida ao cão.
.
Nicole fica uma semana sem atender as minhas ligações.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail: alzumunir@gmail.com