quarta-feira, 26 de junho de 2013

CONTOS DO MUNIR 008/2013



O ROUBO QUE 
NÃO HOUVE
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Edilberto fez concurso para o Banco do Brasil. Com a criação do Banco Central, para lá foi requisitado. Funcionário exemplar passou a exercer uma função de confiança no Meio Circulante, divisão que tinha entre suas atribuições, a de regular a quantidade de moeda, recolhendo ou distribuindo quando necessário. Dispunha de várias caixas-fortes. As notas desgastadas pelo uso, ou que seriam substituídas por novas emissões ali eram guardadas e mais tarde incineradas. Edilberto era de família de classe média, desde menino achava injusto que alguns tivessem muito dinheiro, outros pouco e muita gente fosse pobre.
Embora católico, não era praticante, um pouco incrédulo em relação ao céu e inferno. Acreditava mais no poder do dinheiro... Que a felicidade era terrena- não que o dinheiro tudo comprasse, mas que um mínimo dele era necessário.
Achava um desperdício queimar aquela dinheirama toda com tanta gente precisando.
Um pensamento martelava sua cabeça, o que poderia ele fazer? Não era rico, fazia contribuições mensais para associações de auxílio aos cegos, aos doentes de câncer, a crianças órfãs e outras tantas casas de caridade. Sentia não poder doar mais.
Anos se passaram e Edilberto passou a ter a responsabilidade de uma das caixas-fortes, localizada no térreo. A ele cabia despachar, no carro blindado, o numerário a ser incinerado em um forno da Cervejaria Brahma localizada nas proximidades.
Edilberto imaginou que poderia utilizar aquele dinheiro em uma causa mais nobre, distribuí-lo por aquelas instituições tão necessitadas.
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Iniciou o procedimento que tinha em mente.
As notas que seriam queimadas, eram ensacadas pelo zelador da caixa-forte, no caso o próprio Edilberto. Ele preparou sacos em duplicidade. Naqueles que seriam transportados para o forno, usou a técnica do golpe do conto de vigário, colocou jornais até quase a borda e cobriu com dinheiro verdadeiro. Nos que ele viria buscar mais tarde, os enchia com as notas recolhidas, escolhendo as melhores, contabilizava tudo, já selecionando o que doaria a cada instituição.
Edilberto tinha uma Caravan, caminhoneta grande.
Chegou bem cedo ao banco com seu carro e ele próprio, não queria testemunhas no que faria, pôs sua carga preciosa no porta-bagagem do veículo. Sabedor da rotina dos vigias, calculou para sair logo após a troca da guarda.
Assim foi feito, Edilberto deixou seu carro na garagem de sua casa e regressou ao banco onde esperou a chegada do carro forte. Os sacos restantes abertos, aparentemente cheios com dinheiro foram fechados na presença do inspetor e embarcados para cremação.
As doações se iniciaram lenta e gradualmente
Seu plano corria muito tranquilamente, parecia ser um crime perfeito.
À época, o sistema bancário não era informatizado e nem a Receita Federal controlava depósitos e saques.
Edilberto sempre depositava nas contas das instituições, preservando seu anonimato.
O Destino reservava uma surpresa para Edilberto, a diretora de um orfanato era casada com o gerente do banco de onde vinham as doações. Ficou curiosa em saber quem era o misterioso Mecenas. O marido descobriu que era Edilberto, funcionário do Banco Central. A esposa resolveu agradecer e elogiar o bancário. Escreveu uma carta ao Presidente do banco citando nominalmente Edilberto e a ele tecendo loas.
Seguiu-se uma sindicância em caráter confidencial, uma contabilização rigorosa foi realizada em todas as caixas fortes; o resultado não mostrava desvio de dinheiro.
Edilberto passou a ser vigiado por agentes do banco, foi detido e levado à presença da Diretoria. Confessou o que vinha fazendo. Parte da quantia foi recuperada e dessa vez realmente incinerada.
O Banco Central ocultou o acontecido.
Edilberto foi devolvido ao Banco do Brasil e movimentado para uma agência em Tabatinga no Amazonas onde vive até hoje.

Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

domingo, 9 de junho de 2013

CONTOS DO MUNIR 007-2013



MENINICES

DISNEY WORLD 2010
Luiza
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Elevador que Cai
 Luiza tem seis anos. É lourinha, os dentinhos da frente já caíram, está junto da mãe na entrada do Castelo. As luzes piscam, apagam-se por alguns segundos. Luiza tem medo. Um holograma mostra um fantasma. A música é fúnebre. Entram no elevador. A porta do elevador se abre e, nos andares, mais fantasmas aparecem. Luiza se agarra à mãe. O elevador sobe mais ainda, para no último andar. Dá para ver a altura em que está por um vidro; lá em baixo, as pessoas parecem pequenas.
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O elevador começa a descer normalmente, um estrondo e começa a cair vertiginosamente.
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Luiza grita: Mamãe! Será que a gente vai sair vivo daqui?
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Ainda assustada, Luiza e a mãe saem do elevador, estavam com fome, estimuladas pelo medo- comer lhes daria a coragem perdida.
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A mãe de Luiza pediu uma pizza de mussarela e rúcula fresquinha. Luiza ao ver a pizza disse:
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-Mamãe! O meu cocô vai ficar verde!

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Helena
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Helena tem três anos. Estava com os pais em um apartamento de um hotel da Disney. Seu avô estava em um quarto no mesmo corredor. Bem cedinho, aproveitando a porta aberta Helena, saiu correndo e bateu no apartamento do vovô.
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-Vovô, eu fiz cocô!
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Deitou-se na cama e começou a tirar a fralda.
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Era muito.
E ela:
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-Olha o meu cocô!
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Alegre, rindo, toda ensopada, o perfume se espalhando.
Gritava radiante:
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-É o cocô da Helena, o meu cocô!
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Por sorte, a faxineira do hotel estava fazendo a limpeza e a fralda foi devidamente descartada.
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Deu muito trabalho, uso de muito detergente, portas e janelas abertas até que o ambiente se tornasse respirável

SHOPPING LEBLON 2013
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Três meninos e uma menina, dois deles mais crescidinhos, a menina e o outro um pouco menores. Estavam em frente à Livraria Travessa. Duas poltronas vagas- o menino menor, Pedro, arremessou sua mochila em uma delas para garantir o lugar, a garota, Marta, fez o mesmo com sua bolsa. Os dois garotos maiores, Marcelo e Carlos Alberto, não deram bola, tiraram a mochila e a bolsa e sentaram.
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Marta chamou o amiguinho que ficara de pé e começou a cochichar no ouvido dele, despertou a curiosidade dos outros dois. Pedro falou para ser escutado:
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-Oba! Vamos sim e começaram a caminhar, a garota liderando.
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Foi o suficiente para que Marcelo e Bebeto se levantassem e passassem a seguir a guria.
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Pedro deu a volta rápido, sentou-se, Marta fez o mesmo.
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Os taludinhos se renderam a astúcia.
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TIJUCA CASA DE VILA
Pedro e Zeca
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Pedro tem oito anos, tinha acabado de brigar com o Zeca, irmão do Bituta, logo fizeram as pazes. Dona Carmem, mãe do Zeca soube da briga, mãe é mãe... Achou que o Pedro era o culpado.
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Dona Carmem, falando de forma não preconceituosa, tem seu IMC* bastante elevado na relação ideal de peso-altura. Só usa vestido tipo camisolão, é muito branca, usa um batom vermelho forte e mesmo em casa põe sombras nos olhos. A gente fica em dúvida se é mesmo pintura ou natural. Dona Carmem é viúva, corre boato de que tenha despachado o marido, depois que soube que ele a traia.
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O Zeca chamou o Pedro para ir a sua casa, iam pegar bolas de gude, Zeca foi até o quarto procurar, jogariam na rua da vila, onde o Zeca morava.
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Pedro ficou sozinho na sala. Dona Carmem ouviu que tinha alguém e saiu da cozinha para olhar. Viu Pedro, com a mão direita nas costas, pegou com a esquerda uns biscoitos em um pote.  
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Falou:
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Pedro, esses biscoitos são uma delícia, você não quer?
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Dona Carmem estava com um camisolão vermelho. Pedro viu pelo espelho da cristaleira o facão de cortar carne.
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Apavorado, cruzou os braços abaixo do estômago, deu meia volta e saiu correndo para a rua.
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Dona Carmem ainda o chamou, mas Pedro já estava longe.
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Desde então, mesmo adulto, Pedro ainda sente um frio percorrer sua vertebral, quando cruza com uma mulher de IMC muito elevado e de vestido camisolão; se for vermelho, então...
*Índice de Massa Corporal.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

segunda-feira, 20 de maio de 2013

CONTOS DO MUNIR 006/2013



Um Inglês no Carnaval de Salvador-BA
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Esta é uma história real. Nomes, nacionalidades, profissões, lugares foram propositadamente trocados.
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João Araujo é militar, a mulher tem irmã que vive na Inglaterra, todos os anos, passam pelo menos quinze dias em Londres. Lá o médico ortopedista Bill tornou-se amigo da família por socorrer e atender com sucesso o sobrinho deles. Bill, embora casado e com um filho, é gay.
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João, coronel do Exército mora em Salvador, Bahia, em frente ao mar. Em um dos bairros mais nobres da cidade, Rio Vermelho, alguns cantores famosos baianos têm casa lá. A viúva de Alfredo Saad, moradora da cobertura do edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace, mudou-se para lá.
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O médico inglês viu fotos de Salvador, das praias, da Igreja de São Francisco; encantou-se.
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Convenceram João a hospedar Bill em sua casa, quando o inglês viesse ao Brasil. Não veio homofóbico, mas relutante, concordou.
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Era o mês de fevereiro, carnaval.
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O doutor veio só, ficou alojado no apartamento de João, no mesmo quarto onde dormiam os cunhados ao visitar o Brasil. À noite, saiu para ver de perto a batucada.
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O coronel e esposa costumam dormir cedo, ambos não deixam a prática de exercícios pela manhã bem cedo na Academia.
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Era madrugada, quando a secretária da casa bate à porta de João.
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-Coronel, tem gente estranha aqui!
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João, desperto, foi até o quarto do médico; a porta trancada, a luz acesa, bate e chama:- Bill!, Bill
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Sem resposta, insiste. Nada. Espia pela fechadura, não consegue ver o ortopedista, mas vê um rapaz forte sentado na cama. João pega seu revólver. Arrepende-se e resolve deixar o caso para a polícia. Desce vai até a rua, relata o ocorrido a uma radiopatrulha. O Sargento, experiente, chefe da patrulhinha, pergunta, ironicamente, se o cara é gay. Os policiais decidem chamar o BOPE.
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Em menos de cinco minutos, sobem ao apartamento do coronel.
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São quatro homenzarrões, equipados com capacetes e coletes à prova de bala, empunhando metralhadoras; batem e gritam na entrada do quarto inutilmente. Perguntam-lhe se podem arrombar. Diante da resposta afirmativa, derrubam a porta.
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Um policial corre para a janela, os outros três imobilizam o garotão que é revistado e algemado.
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O estrangeiro, vestido de baiana e de peruca loura, está deitado no piso do quarto, o vômito espalhado ao seu redor. Tentativas para acordá-lo são feitas sem resultado. Tinha sido vítima do “Boa Noite Cinderela”.
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O coronel acompanha os policiais até a rua, que perguntam:
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- O que o senhor quer que a gente faça com ele?
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Já, o sargento diz:
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- Tem algum pra nós?
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João dá duzentos reais e diz para levar o rapaz preso.
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O coronel chama a ambulância, o médico só acorda no dia seguinte bem tarde, sua mala está no quarto do hospital, um endereço de um hotel onde já tem um quarto reservado, e a passagem de retorno a Londres já marcada.
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Dois dias depois, a empregada entrega ao dono da casa a meia que achara na gaveta embutida na cama do quarto de hóspedes. Dentro dela, mil e quinhentos dólares.
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Voltando à Inglaterra, João procura Bill e lhe devolve mil e quatrocentos dólares.
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Não diz nada, mas está descontando a propina paga ao sargento da patrulhinha.
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E Bill:
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-Sorry John, but I loved the Bahia Carnival huum, huum...Geez, next year, I’ll be back.
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-Desculpe João, mas adorei a Bahia, Carnaval huum, huum...
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NOOSSA! Ano que vem, eu voltarei.
Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com

terça-feira, 14 de maio de 2013

ARTIGO DO MUNIR 4


CRÔNICAS E CONSEQUENCIAS 4
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Agosto de 1971 a Policia Civil, cerca o Colégio André Maurois, destitui e prende a diretora Henriette Amado. Os alunos se revezam em vigília inútil por três dias. Depois de algumas semanas de tensão, um grupo, do qual fazia parte o filho mais velho do Comandante Munir, consegue reabrir um diálogo com o novo diretor para reestabelecer, pelo menos em parte, a “Liberdade com Responsabilidade” e organiza, com apoio da direção, um campeonato de futebol entre as turmas do colégio. Até hoje, esse grupo venera o lema da saudosa ex-diretora Carlinhos em sua última crônica parece evocar Henriette no relacionamento disciplinar-hierárquico existente entre tripulantes e oficiais a bordo de um submarino. Por outro lado apesar de ser jornalista e não estrategista, já vislumbrava o emprego do submarino em sua missão mais importante: a defesa de nossa plataforma continental, que sabemos hoje possuir grandes reservas de petróleo.
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O que parecia um inferno astral para o Comandante do Bahia, após a última crônica do Carlinhos, transformou-se em mar de Almirante. O Chefe da Esquadra, também submarinista, orgulhoso de como foram tratados os marinheiros das profundezas, não poupou elogios.
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Munir Alzuguir já integrava a lista para promoção por merecimento, seus temores de ser preterido pelo episódio se dissiparam, quando foi alçado a Capitão de Mar e Guerra ainda no comando do Bahia.

O “passeio de submarino” chegou à Presidência, então Governo Militar, e foi citado como exemplo a ser seguido por autoridades castrenses para o estreitamento das relações entre civis e militares.
Manolo promoveu no Antonio’s um jantar com a oficialidade do Bahia (cavaquinhas deliciosas).

Carlinhos, pouco ligando às críticas de seus companheiros de imprensa, continuava a bebericar seu uísque e fumar seu cigarrinho no canto da boca. Frequentou algumas vezes à casa do agora ex-comandante do Bahia.

Em determinada ocasião, escondeu em seu apartamento um jornalista procurado pela Policia Civil. Nesse mesmo dia, por uma dessas ironias do destino, seu agora conhecido oficial de Marinha, bateu à sua porta, convidando-o para o aniversário de sua filha caçula.

Carlinhos foi; ficou pasmo quando o comandante entregou a ele um pacote amarrado com barbante. Era seu primeiro romance manuscrito, em Vila Velha no Espírito Santo, aos dezesseis anos.
Nunca soube como aquilo fora parar nas mãos de um militar. Depois, em um romance, disse acreditar que o Serviço Secreto da Marinha, “CENIMAR” tinha empreendido busca em sua casa. A história na verdade era bastante diferente: O irmão suicida de um parente do comandante, muito amigo de Carlinhos, pedira que fosse entregue ao agora jornalista de sucesso, o seu primeiro romance, fato omitido propositadamente para evitar tristes recordações.

Dois anos mais tarde, o Comandante Alzuguir, avaliado por uma comissão da Diretoria do Pessoal da Marinha embarcava com a família para os Estados Unidos em missão diplomática na Organização dos Estados Americanos.

Os filhos do Comandante Alzuguir foram matriculados por determinação da Prefeitura de Maryland em escolas americanas; a menina, a caçula, foi alfabetizada novamente em inglês e mais tarde teria seu próprio cursinho.
O menino mais novo, mas muito forte, sofreu tentativas de bullying, sua reação foi tão violenta que botou para correr os zombeteiros e ele passou a ser respeitado na escola.

O do meio, que teria sido um marinheiro excepcional, passou da idade por estar na América. A carreira na Marinha agora é um desejo do seu filho, um garotão lindo hoje com 16 anos e que herdou do pai o dom para o desenho.

O mais velho, estudava engenharia na Universidade de Brasília, embarcou quando o semestre terminou e foi matriculado em uma universidade americana. Hoje, integra o quadro técnico de engenheiros da Petrobras e lidera a concessão do Selo de Eficiência Energética para fogões e automóveis.

Segue a última crônica do Carlinhos. Escrita no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 3 de julho de 1970. Uma sexta-feira.

Autor: Munir Alzuguir
E-Mail:alzumunir@gmail.com